Doutor Marco Aurélio Góes Monteiro |
Doutor Marco Aurélio Góes Monteiro mostra que tem muito surf no pé.
Muito se fala sobre os benefícios do surf e da beleza de seu estilo de vida.
A plasticidade do esporte, a proximidade com a natureza, o modelo de liberdade e desprendimento em relação ao mundo são algumas das virtudes associadas ao esporte conhecido como “esporte dos reis”.
Porém, por trás do estilo de vida, esconde-se uma perigosa armadilha: o estímulo a uma vida pouco produtiva e o desenvolvimento de um comportamento de adolescência tardia, que pode desencadear no comportamento conhecido popularmente como complexo de Peter Pan.
Esse comportamento se resume a um prolongamento da vida adolescente, na vida adulta do individuo, levando a uma falta de sincronia entre idade física e mental.
As conseqüências desse fenômeno são fáceis de serem identificadas: homens e mulheres adultos que retardam ou atrofiam sua carreira profissional, adultos que se recusam a assumir compromissos afetivos e retardam a constituição de famílias sob o argumento de que isso lhes tolheria a "liberdade", adultos que possuem valores e atitudes de adolescentes, gastando horas a fio numa improdutiva vida de praia agarrados a valores infantis, inclusive aceitando como normal a dependência econômica dos pais.
Mas de que forma o surfe pode colaborar para a consolidação desse tipo de comportamento?
Bem, sabe-se que qualquer esporte ajuda a moldar e educar um jovem.
Esportes que obedecem à regras rígidas e que exigem comportamento solidário ou grupal influem na forma como o individuo se relaciona com o outro e com o mundo à sua volta.
Esportes como o tênis, existem na total dependência da presença de um parceiro, além disso, quadras estão disponíveis em horários específicos os quais tem que ser cumpridos e até reservados para sua utilização.
. No futebol e no vôlei, a necessidade de trabalho em equipe e, assim como no tênis, a existência de regras claras compõem um universo onde a liberdade e o despojamento de regras e horários é inviável, sob pena de forte prejuízo ao grupo.
Viciado em surf, médico e psicólogo Marco Aurélio Góes Monteiro abusa das ondas.
Foto: Arquivo pessoal.
No caso do surf, especificamente, a situação pode ser agravada se vier acompanhada do consumo de drogas não sintéticas, como maconha e skunk, as quais têm forte efeito "acomodador" no indivíduo.
Ou seja, estimulam o individuo a "ficar onde está, como está", de preferência na praia vendo a vida passar.
“Na minha opinião maconha é a mais perigosa das dependências químicas”, afirma o médico e psicólogo carioca Dr. Marco Aurélio Góes Monteiro, diretor de uma clínica de psicoterapia e com vasta experiência no tratamento das mais diversas desordens mentais.
“Por seus efeitos físicos relativamente suaves, a maconha permite um convívio e uma utilização mais regular. E é aí que mora o perigo.
O dependente químico de cocaína, por exemplo, rapidamente sente seus efeitos degradantes. O corpo perde condicionamento rápido, o usuário sente rapidamente o desgaste gerado pela droga. Ao contrário da maconha, que prolonga por maior tempo o auto-engano”, explica o médico e psicólogo.
“A maconha funciona como um cupim”, explica o doutor Marco Aurélio.
“Por fora parece estar tudo bem, porém, um dia quando você abre a caixa, descobre que está toda corroída por dentro e que não sobrou nada”.
Antes que os mais apressados queiram rotular as opiniões do médico entrevistado como “caretas”, é importante que saibam que Marco Aurélio é um surfista de longa data e atuante, com viagens todo ano para algumas das melhores ondas do planeta.
Além disso, Marco Aurélio conhece de perto o céu e o inferno das drogas, portanto é bom você levar a sério o que ele tem a dizer.
“As pessoas tendem a buscar esportes que coincidam com traços de sua personalidade.
O surf, em particular, pode atrair pessoas com características narcisista ou mesmo egoístas.
Esse individualismo quando praticado de forma exacerbada leva a formação de pessoas egocêntricas.
A maconha é uma droga que fortalece esse tipo de comportamento, pois com o tempo o indivíduo perde a capacidade de sentir empatia por outro”, explica o médico e psicólogo.
De fato, não é difícil perceber esses comportamentos no meio social do surf. Com um pouco de esforço é fácil nos deparar nas praias, com adultos que se tornaram “eternos adolescentes”, altamente egocêntricos, imaturos e individualistas.
Esse comportamento fica ainda mais claro quando olhamos para nossas “galeras”, distribuídas pelos diversos picos do Brasil. Seria o localismo, por exemplo, um sintoma desse tipo de comportamento?
Ao contrário do que dizia o slogan de uma famosa surfwear, a vida não é uma praia.