Sérgio Burihan |
Sérgio Burihan, sócio-fundador e primeiro presidente da A.S.C., Associação de Surf de Caraguatatuba (SP), professor universitário e de educação física, Burihan ou simplesmente "Serginho", conta como o surf começou em sua vida, além de ter servido de base para ajudar a fazer dele a pessoa carismática que é hoje.
Mesmo longe da Associação, ele foi um dos principais responsáveis pela existência da entidade.

LS: Foi numa época muito difícil ser surfista para sociedade?
Prefiro falar das coisas boas, das coisas que realmente influenciaram na minha vida, como as viagens e o contato com a natureza, que formaram minha personalidade e a busca por novos desafios e novas culturas.
Aprendi muito com os lugares e as pessoas. Minha família sempre me deu a certeza dos caminhos a seguir, e dentro das possibilidades sempre me apoiaram.
Minha mãe dona Maria, minha esposa Marlene, meus irmãos Salim e Shirley, sempre se empenharam para que eu tivesse uma cabeça boa. Agradeço a todos!
LS: Você também competiu? Chegou a ganhar algum campeonato?
Sim. Tirei até bons resultados, ganhando uma etapa local da A.S.C. e boas participações no paulista e nacional, que aconteciam por aqui.
A melhor apresentação foi em um mar gigante no nacional de Ubatuba na Praia Grande, onde fui passando, passando e cheguei ao homem a homem, mas perdi para o campeão Ricardo Toledo.
Havia mais de duzentos surfistas inscritos e vários nem sequer saíram do carro, com medo do tamanho das ondas.
Fiquei entre os doze e ganhei vários elogios, conquistando o respeito da rapaziada e da comunidade do surf.
LS: Você chegou a viajar muito para surfar? Qual foi o mar maior e mais perfeito que você surfou?
Surfei graças a Deus nos picos mais clássicos do Brasil, de norte a sul, numa época que você caia ou sozinho ou só com mais um ou dois.
Surfei na Guarda, Felix, Itaúna, Itamambuca, Maresias, Silveira, Cacimba do Padre, onde tirei o melhor tubo de minha vida até agora. Surfei várias ondas mar afora. Peru, Chile e Panamá.
As maiores? Aí a coisa pega. Umas massas d'água no Cardoso, no Farol de Santa Marta que parecia Sunset. Grande mesmo. E o pior foi que surfei de biquilha 5,9.
A segunda e destemida vez que surfei no Peru, junto do local Paco, fiquei quarenta e cinco minutos sentado no outside de Pico Alto, até que ele chegou ao meu lado me deu um tranco e falou: Ei Sergio, você consegue, vai! Ontem surfamos num mar mais perigoso que este, Kontik, 10 pés, e você segurou legal, vai!
Rapaz, tive meu momento de alegria, mas durou pouco! Foi só durante um final de tarde, mas foi mágico! No dia seguinte tive que passar numas oficinas de capoeira num grupo em Lima e seguir viagem para o Brasil.

LS: Como surgiu a idéia de fundar a A.S.C. e quem foram as pessoas envolvidas na época?
Precisávamos unir todo mundo para melhorar as condições de surf daqui. A rapaziada até que fazia alguma coisa, mas cada um para si e a A.S.C. veio com a proposta de unir os sonhos e ideais.
Não gostaria de falar de nomes para não correr o risco de esquecer alguém, mas eram as pessoas que sempre estiveram à frente do surf de Caraguá. E uns que sempre ficaram à sombra também. Explorando e ganhando fama sem nunca ter feito por espírito, mas sim por outras razões.
LS: Você se arrepende de ter deixado a diretoria da A.S.C.?
Nunca! Cada um tem seu tempo!
Acredito ter dado a minha contribuição para o surf local, poderia ter feito mais, mas continuo aí ajudando como posso.
LS: Depois de um período você se envolveu com a capoeira, como isso aconteceu, você parou de surfar?
Não, nunca parei de surfar. A capoeira foi outra paixão que me tomou muito tempo, me dedico demais a ela, mas em frente à sede do meu grupo na Bahia, em Arembepe rolam altos picos de fundo de coral e parte do meu quiver esta lá, sempre pronto para uma caída show com ondas rápidas e tubulares também.
Conheci a capoeira ainda menino na beira do mar. Depois com o tempo fui deixando me levar pelos encantos do berimbau e hoje estou aí.

LS: Você chegou a virar mestre de capoeira?
No meu grupo, o mestre chama-se lua de Bobo, tem 50 anos de capoeira eu sou apenas um de seus segundos, a coisa e séria lá!
E já tenho mais de 20 anos de prática.
LS: E a faculdade, o que te levou a fazer Educação Física?
O surf e a capoeira, ou melhor, a minha vida toda, a minha caminhada, levaram-me a chegar aonde cheguei!! Os erros e os acertos, deixaram-me este legado!!!
LS: Com certeza isso fez com que você crescesse pessoalmente e profissionalmente, acha que o surf e a capoeira te motivaram a isso?
Demais! Pois foram determinantes na minha formação pessoal e não poderia ser diferente na minha vida profissional.
Onde até tentei me aventurar em outras praias, mas... O esporte e a cultura bateram mais fortes!
LS: Como você vê o processo de ensino e aprendizagem do surf, um esporte tão marginalizado no passado e que hoje é até disciplina no currículo escolar e universitário por aí, sem contar que o esporte massificou-se e tem muita gente ensinando surf sem formação e qualificação, tanto em escolas públicas e particulares, como aulas particulares.
Por que você acha que isso aconteceu?
Acredito que seja resultado da gana do ser humano.
É natural que isto aconteça aonde ele vê possibilidade de ganhar lucros, ele investe!
A mídia tem sua parcela de culpa, mas ela apenas reflete e alimenta esta ambição!!
O surf tornou-se um esporte profissional e de forte valor saudável e estético não podia ser diferente, todo mundo quer viver na praia e ainda mais, num país com ótimo clima e boas ondas! Como o nosso, onde o surf na maioria das vezes torna-se um único trampolim para aquele menos provido de possibilidades sociais. Ai eles se agarram a isto!! A todo custo.
LS: Você acha que essas pessoas precisam de formação e qualificação? |
BOAS ONDAS, PAZ, AMOR E BEM!!!! |